Porque a Caatinga importa? 

Diante do avanço da degradação, o bioma brasileiro passa a concentrar ações e recursos em

Único bioma exclusivamente brasileiro, a Caatinga está presente em nove estados e ocupa cerca de 10% do território nacional, abrigando o semiárido mais populoso do planeta, onde vivem aproximadamente 27 milhões de pessoas. Apesar de sua dimensão ambiental, social e econômica, segue sendo um dos biomas menos conhecidos, estudados e valorizados do país, uma lacuna que começa a ser revista à luz dos desafios climáticos e das oportunidades associadas à transição para uma economia de baixo carbono.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2019), a Caatinga se estende por mais de 860 mil km² e concentra uma diversidade ambiental significativamente maior do que o imaginário associado à seca costuma sugerir. Estudos da Associação Caatinga apontam que o bioma está entre as florestas semiáridas mais biodiversas do mundo, com mais de 3.100 espécies de plantas vasculares, além de centenas de espécies de aves, mamíferos, répteis, anfíbios, peixes e insetos, muitas delas endêmicas, ou seja, exclusivas desse bioma.

Essa riqueza é resultado de um longo processo evolutivo em condições climáticas extremas. Ao longo de milhares de anos, plantas e animais desenvolveram estratégias sofisticadas de adaptação, como armazenamento de água, perda sazonal de folhas e resistência a solos rasos e pedregosos. Longe de ser um ambiente “pobre”, a Caatinga é um ecossistema altamente especializado, com atributos que hoje despertam interesse crescente de pesquisadores, formuladores de políticas públicas e investidores atentos à resiliência climática.

Povos, biodiversidade e serviços ecossistêmicos

Além da biodiversidade, a Caatinga presta serviços ecossistêmicos essenciais. O bioma contribui para a regulação do clima regional, a proteção dos solos contra erosão e desertificação, a ciclagem de nutrientes, a polinização e a manutenção dos ciclos hídricos. Esses serviços sustentam cadeias produtivas, apoiam a segurança alimentar e reduzem riscos ambientais, com impacto direto sobre a economia regional e a qualidade de vida das populações locais.

A dimensão humana é central para compreender por que a Caatinga importa. Milhões de pessoas dependem diretamente de seus recursos naturais, e o bioma abriga uma diversidade de povos e comunidades tradicionais que mantêm vínculos históricos com o semiárido. Atualmente, existem 94 comunidades quilombolas na Caatinga, distribuídas por cerca de 550 mil hectares, além de 45 povos indígenas, que ocupam aproximadamente 140 mil hectares do bioma.

Essas populações desenvolveram, ao longo de gerações, modos de vida profundamente adaptados ao semiárido, baseados no uso eficiente da água, no manejo sustentável da vegetação nativa e na diversificação das atividades produtivas. Esses conhecimentos tradicionais, reconhecidos por pesquisadores e instituições como o Instituto Nacional do Semiárido (INSA/MCTI), representam um patrimônio estratégico para a construção de soluções sustentáveis e inclusivas.

Um bioma sob pressão e estratégico para o futuro

Ao mesmo tempo, o bioma enfrenta pressões crescentes. O desmatamento, o uso inadequado do solo, a exploração predatória de recursos naturais e os efeitos das mudanças climáticas vêm acelerando processos de degradação ambiental. De acordo com o Relatório Anual de Desmatamento do Map Biomas (2024), a Caatinga foi o terceiro bioma mais desmatado do país em 2023, reforçando a urgência de soluções estruturantes.

Diante desse cenário, a Caatinga transcende a percepção de ser apenas um área frágil e ascende ao reconhecimento como um ativo estratégico vital para o Brasil. A compreensão de sua relevância é crucial, pois representa o passo inicial para potencializar a valorização do bioma e pavimentar o caminho para a implementação de ações que harmonizem a preservação ambiental com o desenvolvimento econômico e a equidade social.

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