loader image

A Amazônia precisa exportar valor, não apenas recursos

*Escrito por Marcelo Thomé

Durante muitos anos, a Amazônia foi vista quase que exclusivamente pela ótica da conservação. Essa agenda foi e continua sendo essencial. Mas ela precisa evoluir. Não basta proteger a floresta; é preciso criar oportunidades para sua população.

Vivo há quase três décadas na região. Depois de tantos anos percorrendo estradas, rios e comunidades, aprendi algo que só quem conhece de perto a realidade amazônica consegue compreender: não precisamos escolher entre manter a floresta em pé e promover o desenvolvimento econômico. Podemos — e devemos — fazer os dois ao mesmo tempo.

A Amazônia produz riqueza há séculos. Fornece alimentos, energia, madeira, minérios e conhecimento para o mundo inteiro. Ainda assim, boa parte dessa riqueza deixa a região sem se converter em prosperidade para quem mora aqui. Segundo dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 40,4% da população local vive em situação de pobreza. E seguiremos convivendo com indicadores sociais incompatíveis com a importância do bioma para o planeta se a forma como pensamos esse território não mudar.

Nesse contexto, a industrialização sustentável das cadeias produtivas torna-se uma agenda estratégica. Precisamos agregar valor aos ativos da floresta por meio da ciência, da inovação, da tecnologia e do conhecimento produzido no próprio território. Mais do que exportar recursos naturais, a Amazônia precisa exportar produtos e soluções sustentáveis, capazes de competir globalmente.

Hoje, com exceção da Zona Franca de Manaus, que concentra boa parte do parque industrial amazônico, o restante da Amazônia Legal possui uma economia de perfil predominantemente primário e exportador. Para mudar essa realidade, ampliar o acesso ao capital é indispensável. Muitos projetos deixam de crescer porque ainda são avaliados por modelos financeiros que não dialogam com as especificidades locais. Precisamos de instrumentos capazes de reduzir riscos, fortalecer a governança e tornar iniciativas sustentáveis aptas a receber investimentos. O desafio é estruturar modelos replicáveis, mobilizar recursos em escala e fortalecer cadeias produtivas inteiras.

E o sucesso dessa agenda não será medido apenas pelo volume de recursos investidos, mas principalmente pela capacidade de transformar bons projetos em negócios sólidos que atraiam capital, ganhem escala e gerem prosperidade de forma duradoura.

A floresta reúne todos os ativos para liderar uma nova economia baseada na sustentabilidade. O que falta é acelerar a concretização desse potencial em oportunidades reais para a região e para o país. Esse é o caminho para converter riqueza natural em valor agregado e desenvolvimento sustentável em qualidade de vida para os mais de 30 milhões de brasileiros que chamam a Amazônia de casa.

*Marcelo Thomé é presidente do Instituto Amazônia+21, da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (FIERO) e vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
plugins premium WordPress